Música, sublimação e recalque, por Rita Cerioni


Segundo Freud, a arte é uma das formas mais sofisticadas de sublimação da nossa pulsão. Sublimar significa dar um destino justo, criativo e socialmente aceito para aquilo que fora recalcado por ser insuportável ao eu ou por desvelar um desejo incompatível com a cultura.

A música pode revelar, em parte, o que que não pôde ser dito ou vivido, dada a força do recalque. Exemplo disso são as letras produzidas na época da ditadura. Sob a mais dura censura as músicas revelavam o que a repressão da época insistia em aniquilar.


Cálice, de Chico Buarque e Gilberto Gil, no lugar de cale-se é a prova disso: "Pai, afasta de mim esse cale-se".


Belchior cantou “eu tenho medo de abrir a porta, e dar no sertão da minha solidão...faca de ponta e meu punhal que corta e o fantasma escondido no porão”. Aqui, fala sobre os horrores que aconteciam nos porões da ditadura.

“Dormia, a nossa pátria mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída, em tenebrosas transações”, denunciando a tomada do poder pelos militares.

Para não dizer que não falei de flores, de Geraldo Vandré, é um hino contra a ditadura: “Pelos campos há fome em grandes plantações”, revelando a pobreza de muitos frente à fartura de poucos.


A música Cartomante de Ivan Lins, pede paciência e cuidado e profetiza “Cai o rei de espadas, cai o rei de ouro, cai o rei de paus, cai não fica nada”, desvelando o desejo da queda dos poderosos da ditadura.


“Que sonha com a volta do irmão do Henfil, com tanta gente que partiu, num rabo de foguete, chora, a nossa pátria a mãe gentil, choram Marias e Clarisses”, trecho da música de Aldir Blanc sobre as mães que choravam seus filhos desaparecidos.


E foi assim, de letra em letra, de nota em nota, que a angústia vivida na ditadura pôde se tornar canção. A genialidade de Freud ao conceituar a sublimação como uma saída possível para o desejo recalcado sustenta a tese de que a arte é o que nos salva.


E por isso ela é tão atacada pelo extremo conservadorismo, em que o recalque na sua forma patológica, pelo excesso, é o mecanismo por excelência.



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